Cozinha de Frankfurt – o protótipo da cozinha moderna

Cozinha Frankfurt

As cozinhas de hoje em dia refletem pouco das cozinhas de antigamente. Se durante muitos séculos foi dada pouca importância a este espaço da casa, muito mudou para os dias de hoje. No entanto, existe uma cozinha que deixou marcas profundas no conceito das cozinhas modernas, e essa é a Cozinha de Frankfurt, o protótipo da cozinha moderna.

Cozinha Frankfurt

Após a 1ª Guerra Mundial a Alemanha necessitou construir um elevado número de habitações. No entanto estava a atravessar um período de escassez económica. Por conta disso existia a condicionante de ser exigida uma construção eficiente e económica, para poderem albergar a classe média alemã. Uma das preocupações na construção desses bairros centrou-se na concepção das cozinhas, as quais iriam dispor de um espaço reduzido, de cerca de 7m2, mas deveriam facilitar a realização das tarefas domésticas nessa assoalhada.

O planeamento destes novos bairros começou em Frankfurt, sob a alçada do arquiteto Ernst May, chefe do departamento de construção municipal de Frankfurt. Assim surgiu a Cozinha de Frankfurt integrada no projeto de construção da Nova Frankfurt – Das Neue Frankfurt. Este projeto durou 8 anos (1925-1933), durante o qual foram construídos 12000 apartamentos.

A Cozinha de Frankfurt foi projetada pela arquiteta austríaca Margarete Schütte-Lihotzky em conjunto com o engenheiro Frederik Winslow Taylor. Sendo ele pai do Taylorismo, movimento cujo objetivo passava pela racionalização do trabalho com vista á máxima produtividade, a arquitecta conseguiu articular esse conceito ao espaço disponível. Margarete inspirou-se nas carruagem-cozinha dos comboios para este projeto. Face ao espaço das carruagens e as tarefas nelas realizadas: cozinhar, lavar e armazenar loiças e alimentos, rapidamente percebeu que o pouco espaço disponível tinha de ser otimizado e que não poderiam existir espaços “mortos”. Interessante saber que a arquiteta confessou, em 1997, numa entrevista dada pela rádio, na celebração do seu centésimo aniversário, que nunca cozinhou para si, pelo que o desenvolvimento desta cozinha havia sido feito apenas pela perspectiva de arquitecta e nunca como dona de casa.

Assim sendo, a Cozinha de Frankfurt procurou que nela se conseguisse realizar um trabalho eficiente e confortável num pequeno espaço. A cozinha tinha dois segmentos de moveis paralelos, separados por um estreito corredor. Tal permitia reduzir o número de passos na realização das tarefas. Numa das laterais, na qual estaria instalado o fogão, existia uma porta de correr para dar acesso á sala de estar/jantar. Existia apenas uma janela na parede oposta á porta de entrada. Todos os espaços foram rentabilizados: a tábua de engomar era dobrável e estava instalada numa parede. Na parede da janela existia uma bancada rebaixada servida de um banco rotativo para realização de tarefas mais demoradas. Nessa mesma bancada estava instalada uma gaveta de alumínio com função de caixote de lixo. A bancada do lava-loiça tinha duas mesas de apoio deslizantes e o escorredor da loiça estava instalado nessa mesma parede. Os materiais utilizados na concepção da cozinha também não foram deixados ao acaso. Foram colocados azulejos nas paredes do lava-loiça e do fogão para facilitar a limpeza das paredes, as portas dos moveis foram pintadas de azul esverdeado pois é uma cor evitada por moscas e mosquitos, as bancadas eram de madeira de faia por serem mais resistentes a ácidos e objetos pontiagudos, para armazenamento de farinhas foram utilizados recipientes de carvalho para evitar o surgimento de bichos e a restante mercearia e condimentos eram colocados em recipientes de alumínio, devidamente rotulados.

Esta cozinha veio substituir a cozinha até então utilizada e conhecida, a qual acumulava as funções de preparação e tomada de refeições, tratamento de roupa, higienização corporal, dormidas e socialização. Passou apenas a ser um espaço de tarefas domésticas, pois as restantes atividades passaram a ter espaços específicos atribuídos. O tratamento de roupa estava integrado num espaço comum aos habitantes.

Apesar de ser a base das cozinhas modernas foram detetadas várias falhas na mesma. Como todos os projetos pilotos, os mesmos carecem sempre de correções. Quando as casas começaram a ser “vividas” pelas famílias começaram a detetar-se fragilidades. Constatou-se que dificilmente poderiam estar duas pessoas a trabalhar em simultâneo na cozinha face ao pouco espaço, logo dificilmente se podia partilhar carga de trabalho. Existiam compartimentos de fácil acesso a crianças e os riscos que daí ocorriam. O layout da cozinha era pouco flexível razão pela qual as pessoas adaptaram os espaços às suas necessidades, não respeitando a sua função inicial. A cozinha passou a ser um espaço exclusivo de trabalho levando ao isolamento da mulher do resto da casa, e isso impossibilitava a convivência durante a realização das tarefas domésticas. Se antes quase tudo ou tudo se centrava nessa assoalhada, agora a mulher sentia-se sozinha.

O surgimento desta cozinha foi um marco histórico na evolução da mesma. Essa importância é notada pelas várias exposições que já ocorreram nos mais variados museus a nível internacional. A Cozinha de Frankfurt já esteve patente, entre outros museus, no MoMa em Nova Iorque, no Mak de Viena e no início deste ano de 2022 no Nasjonal Museet, em Oslo.  Por forma a melhor perceber a estrutura desta cozinha deixo aqui o link de um vídeo, de curta duração, mas que é muito elucidativo – Frankfurt Kitchen 2-minute tour | virtual diorama – YouTube

Agora, quando olhar ou precisar planear a sua cozinha lembre-se que a otimização do espaço já vem pensada desde a década de 1920, e tem vindo a evoluir e adaptado aos tempos modernos. Hoje a cozinha volta a ser espaço de socialização e o conceito de espaço aberto tem sido amplamente aplicado. No entanto, os móveis continuam a procurar ser funcionais por forma a facilitar as nossas tarefas. Acima de tudo, a cozinha é o centro nevrálgico da casa e deve ser um espaço convidativo e facilitador de realização de tarefas, enquanto conseguimos simultaneamente disfrutar da companhia das pessoas que fazem parte do nosso dia-a-dia.

Ana Ferreira

Imagens by Frankfurt Kitchen 2-minute tour | virtual diorama – YouTube

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